Franca entra no circuito nacional de uma das mais importantes exposições dedicadas à produção artística negra brasileira. A partir desta sexta-feira, 28 de agosto, o Sesc Franca recebe Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, mostra que propõe um olhar amplo sobre a presença, a potência e a centralidade do pensamento negro nas artes visuais brasileiras.

A exposição nasceu em 2023, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, como resultado de um trabalho de pesquisa iniciado ainda em 2018 pelo Sesc, e posteriormente passou pelo Centro Cultural Sesc Quitandinha, em Petrópolis. A proposta é itinerante e deverá circular por unidades do Sesc em diferentes regiões do país ao longo de uma década. Em São Paulo, a primeira edição recebeu mais de 130 mil visitantes.

Em Franca, entretanto, Dos Brasis ganha um significado especial. A cidade deixa de ser apenas o local que recebe a exposição e passa a fazer parte da própria narrativa curatorial. O recorte francano estabelece uma conexão direta com três personalidades negras fundamentais para a história cultural do município: Abdias Nascimento, Isa do Rosário e Carlos de Assumpção.

Nascido em Franca, em 1914, Abdias Nascimento foi artista plástico, escritor, dramaturgo, professor, político e ativista. Fundador do Teatro Experimental do Negro, construiu uma trajetória marcada pelo combate ao racismo, pela valorização da cultura negra e pelo pensamento pan-africanista. Sua relação com Franca já havia sido revisitada pelo Sesc na exposição O Quilombismo – Documentos de uma Militância Pan-africanista, realizada na unidade em 2024.

Isa do Rosário, por sua vez, nasceu em Batatais e fez de Franca sua cidade de adoção. Bordadeira, artista visual, poeta, contadora de histórias e guardiã de saberes ancestrais, Isa transforma fios, tecidos, memórias e referências aos orixás em trabalhos que dialogam com temas como ancestralidade, diáspora, espiritualidade, cura e resistência. Sua trajetória artística ultrapassa fronteiras e inclui participação na Bienal de Liverpool, na Inglaterra, além de exposições em importantes instituições brasileiras.

Já Carlos de Assumpção, nascido em Tietê, escolheu Franca para viver, advogar e construir sua trajetória literária. Membro da Academia Francana de Letras e reconhecido como uma das vozes importantes da poesia afro-brasileira, escreveu em 1958 o poema Protesto, obra que se tornou referência pela denúncia do racismo e pela defesa da liberdade e da dignidade.

E é justamente essa memória que faz da passagem por Franca algo diferente. Sete obras do Acervo Sesc de Arte foram incorporadas especialmente para esta edição, criando uma ponte entre a produção nacional apresentada pela exposição e a história cultural da cidade. Entre os artistas relacionados a esse recorte estão No Martins, Eustáquio Neves, Isa do Rosário, Lidia Lisbôa, Jorge dos Anjos e Miguel Penha Chiquitano.

Ao todo, a montagem francana reúne cerca de 90 obras e 76 artistas, distribuídos em sete núcleos curatoriais: Romper, Branco Tema, Negro Vida, Amefricanas, Organização Já, Legítima Defesa e Baobá. A exposição não segue uma linha cronológica tradicional. Em vez disso, cria aproximações entre diferentes tempos, linguagens, territórios e experiências, reunindo pintura, fotografia, escultura, instalações, objetos, trabalhos têxteis, documentos e produções audiovisuais.

Mais do que apresentar obras, Dos Brasis propõe uma pergunta ao visitante: quem contou a história da arte brasileira e quais vozes ficaram de fora dessa narrativa? A exposição confronta apagamentos históricos e amplia o entendimento sobre o papel dos artistas negros na construção cultural do país.

Outro destaque é o cuidado com a acessibilidade. A mostra conta com vídeos em Libras, audiodescrição, paisagem sonora, legendas em braile, pictogramas, conteúdos acessíveis por QR Code e uma obra tátil, além de um programa educativo com mediações para diferentes públicos.

E a abertura promete ser especial: nesta sexta-feira, dia 28, às 19 horas, o público poderá conferir a exposição no Sesc Franca, com participação da Velha Guarda Musical da Mangueira, em uma celebração aos 70 anos de samba carioca.

Para Franca, receber Dos Brasis é mais do que colocar grandes nomes da arte brasileira dentro de uma sala de exposição. É olhar para a própria cidade, reconhecer personagens que ajudaram a construir sua memória e perceber que a história negra brasileira também está aqui, nas ruas, nas palavras, nas obras, nas pessoas e nas histórias que atravessam gerações.

A exposição fica em cartaz até 31 de janeiro de 2027, com entrada gratuita, no Sesc Franca, na Avenida Dr. Ismael Alonso y Alonso, 3.071. A visitação acontece de terça a sexta-feira, das 9h às 21h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30. Há ainda visitas mediadas aos sábados e domingos, das 11h às 12h e das 15h às 16h.